Vegans x Mel
Por Silvana Sita
Dep. de Meio Ambiente SVB- Porto Alegre
Estudante de Eng. Ambiental - UFRGS
E-mail: \n silvanasita@hotmail.com
Em primeiro lugar, quero dar dois esclarecimentos a respeito da palavra “vegans” que usei no título desse artigo. Uma pessoa vegan não consome nada que venha de algum animal, nadinha, seja como comida, roupa ou objeto. Vegans não consomem laticínios, ovos, gelatina, cochonilha (corante), enfim, nada que seja um animal morto ou que seja produzido por um. Vegans também não usam couro, peles, lã, camurça. No que diz respeito aos objetos, a coisa já não é tão rígida assim; por exemplo, encontramos colágeno animal em filmes, restos de animais mortos em palitos de fósforo e em pneus. Encontramos vegans que não vão a cinemas, e também encontramos vegans que não usam palitos de fósforo, usando substitutos, como o isqueiro. Agora, nunca iremos encontrar um vegan que não tenha andado sobre rodas de carro, bicicleta ou ônibus. Outro esclarecimento sobre a palavra vegan que quero fazer aqui é o motivo pelo qual não a usei na forma aportuguesada “veganos”. Embora eu defenda que, enquanto brasileiros e usuários da língua portuguesa, devemos ser coerentes com ela, também é claro que a língua portuguesa é machista. Existem “veganos” e “veganas”, sendo que “veganos” é usado para eles e para todos (eles e elas), mostrando que, enquanto se tenham eles e elas, há o predomínio de eles. Já na forma original, vegan, serve tanto para ele como para ela, uma forma mais democrática. Deixemos de pormenores e vamos entrar na questão em si.
Sim, vegan que é vegan não consome mel. Embora tenhamos visto que nem todos os vegans agem rigorosamente com a definição do termo, utilizando-se, por exemplo, de filmes, fósforos e pneus, isso não explica que vegans também possam consumir mel. Há três razões para essa diferenciação. Primeiro porque a palavra vegan surge de vegetariano, sendo assim a sua preocupação primordial o que se coloca da boca para dentro. Segundo porque o mel é algo muito fácil de ser banido da alimentação, não é algo que você come diariamente, nem algo que combine com outras comidas, e pode ser facilmente substituído pelo melado de cana. Terceiro porque a produção de mel é direta, ou seja, se todas as pessoas do mundo fossem “vegans” comedoras de mel, a produção de mel ia continuar existindo do jeitinho que é hoje, ao contrário da produção de filmes, fósforos e pneus; pois, sem a produção de carne, a qual gera os restos mortais para essas outras indústrias, esses produtos seriam rapidamente substituídos por algo sintético que produza efeitos equivalentes. O mel é um produto de origem animal, sim, a abelha continua sendo um animal; portanto, seguindo a definição de vegans, vegans não podem consumir mel.
Bom, mas ninguém aqui vai deixar de consumir mel só para possuir um “rótulo”. A classificação de uma pessoa em vegan não é para estipular normas. Porém, antes de tudo, vegan designa a pessoa que busca ser o mais coerente e correta eticamente. E por que consumir mel seria eticamente incorreto? Eis algumas razões.
Toda a produção, industrial ou artesanal que envolva animais está ligada à sua exploração de várias formas. Na criação de abelhas, as abelhas-rainhas são inseminadas artificialmente; para tanto, é preciso a obtenção do esperma do zangão, o qual tem a sua cabeça arrancada e sua parte de trás espremida; com o líquido obtido se insemina a abelha-rainha. As abelhas para a produção de mel são essencialmente de três espécies importadas: alemãs, italianas e africanas. Como essas abelhas não pertencem à fauna brasileira, elas provocam um grande impacto na sobrevivência das espécies nativas de abelhas, bem como de outros animais que dependem do néctar e do pólen para a sobrevivência. Dependendo da época climática, a produção de mel é baixa, e as abelhas precisam das reservas de mel produzidas através de seus esforços para sobreviverem, mas, devido à ganância dos apicultores, eles continuam a retirar todo o mel da colméia, matando todo o enxame. Em épocas mais fartas, as abelhas também criam uma nova rainha, princesa, para perpetuar a espécie criando um novo enxame, levando consigo muitas das operárias da colméia. O apicultor, percebendo que a produção de mel irá baixar com a saída dessas operárias, ao fazer a revisão no enxame, detecta a “princesa” ainda em forma de larva e a mata. Esta revisão é feita normalmente em agosto. Outra forma de prejuízo aos apicultores são os animais silvestres que se alimentam do mel das abelhas, como tatus e iraras. Para contornar essa situação, os apicultores instalam armadilhas, capturando e matando esses mamíferos.
Embora você não esteja convencido de que as abelhas possam sentir dor ou demonstrar algum tipo de sofrimento, não pode negar que essa possibilidade existe. Os insetos possuem receptores nervosos convergentes; suas terminações nervosas são na pele (carapaça quitinosa). Admirar-me-ia que todo esse complicado sistema existisse sem uma função ou, sendo tão aproximado ao nosso, desempenhasse uma função tão diferente. Mas, mesmo supondo que as abelhas fossem incapazes de sofrer, mesmo assim, a produção de mel é antiética. Não deixaria, nesse caso, de ser um saqueamento, um roubo. A exploração da colméia é explícita, bem como toda a sua implicação no meio ambiente. Continuar a participar disso é ser inseticista (discriminar o direito intrínseco à vida dos insetos) e continuar sendo cúmplice da exploração dos mais fracos para satisfazer um luxo.
Estudante de Eng. Ambiental - UFRGS
E-mail: \n silvanasita@hotmail.com
Em primeiro lugar, quero dar dois esclarecimentos a respeito da palavra “vegans” que usei no título desse artigo. Uma pessoa vegan não consome nada que venha de algum animal, nadinha, seja como comida, roupa ou objeto. Vegans não consomem laticínios, ovos, gelatina, cochonilha (corante), enfim, nada que seja um animal morto ou que seja produzido por um. Vegans também não usam couro, peles, lã, camurça. No que diz respeito aos objetos, a coisa já não é tão rígida assim; por exemplo, encontramos colágeno animal em filmes, restos de animais mortos em palitos de fósforo e em pneus. Encontramos vegans que não vão a cinemas, e também encontramos vegans que não usam palitos de fósforo, usando substitutos, como o isqueiro. Agora, nunca iremos encontrar um vegan que não tenha andado sobre rodas de carro, bicicleta ou ônibus. Outro esclarecimento sobre a palavra vegan que quero fazer aqui é o motivo pelo qual não a usei na forma aportuguesada “veganos”. Embora eu defenda que, enquanto brasileiros e usuários da língua portuguesa, devemos ser coerentes com ela, também é claro que a língua portuguesa é machista. Existem “veganos” e “veganas”, sendo que “veganos” é usado para eles e para todos (eles e elas), mostrando que, enquanto se tenham eles e elas, há o predomínio de eles. Já na forma original, vegan, serve tanto para ele como para ela, uma forma mais democrática. Deixemos de pormenores e vamos entrar na questão em si.
Sim, vegan que é vegan não consome mel. Embora tenhamos visto que nem todos os vegans agem rigorosamente com a definição do termo, utilizando-se, por exemplo, de filmes, fósforos e pneus, isso não explica que vegans também possam consumir mel. Há três razões para essa diferenciação. Primeiro porque a palavra vegan surge de vegetariano, sendo assim a sua preocupação primordial o que se coloca da boca para dentro. Segundo porque o mel é algo muito fácil de ser banido da alimentação, não é algo que você come diariamente, nem algo que combine com outras comidas, e pode ser facilmente substituído pelo melado de cana. Terceiro porque a produção de mel é direta, ou seja, se todas as pessoas do mundo fossem “vegans” comedoras de mel, a produção de mel ia continuar existindo do jeitinho que é hoje, ao contrário da produção de filmes, fósforos e pneus; pois, sem a produção de carne, a qual gera os restos mortais para essas outras indústrias, esses produtos seriam rapidamente substituídos por algo sintético que produza efeitos equivalentes. O mel é um produto de origem animal, sim, a abelha continua sendo um animal; portanto, seguindo a definição de vegans, vegans não podem consumir mel.
Bom, mas ninguém aqui vai deixar de consumir mel só para possuir um “rótulo”. A classificação de uma pessoa em vegan não é para estipular normas. Porém, antes de tudo, vegan designa a pessoa que busca ser o mais coerente e correta eticamente. E por que consumir mel seria eticamente incorreto? Eis algumas razões.
Toda a produção, industrial ou artesanal que envolva animais está ligada à sua exploração de várias formas. Na criação de abelhas, as abelhas-rainhas são inseminadas artificialmente; para tanto, é preciso a obtenção do esperma do zangão, o qual tem a sua cabeça arrancada e sua parte de trás espremida; com o líquido obtido se insemina a abelha-rainha. As abelhas para a produção de mel são essencialmente de três espécies importadas: alemãs, italianas e africanas. Como essas abelhas não pertencem à fauna brasileira, elas provocam um grande impacto na sobrevivência das espécies nativas de abelhas, bem como de outros animais que dependem do néctar e do pólen para a sobrevivência. Dependendo da época climática, a produção de mel é baixa, e as abelhas precisam das reservas de mel produzidas através de seus esforços para sobreviverem, mas, devido à ganância dos apicultores, eles continuam a retirar todo o mel da colméia, matando todo o enxame. Em épocas mais fartas, as abelhas também criam uma nova rainha, princesa, para perpetuar a espécie criando um novo enxame, levando consigo muitas das operárias da colméia. O apicultor, percebendo que a produção de mel irá baixar com a saída dessas operárias, ao fazer a revisão no enxame, detecta a “princesa” ainda em forma de larva e a mata. Esta revisão é feita normalmente em agosto. Outra forma de prejuízo aos apicultores são os animais silvestres que se alimentam do mel das abelhas, como tatus e iraras. Para contornar essa situação, os apicultores instalam armadilhas, capturando e matando esses mamíferos.
Embora você não esteja convencido de que as abelhas possam sentir dor ou demonstrar algum tipo de sofrimento, não pode negar que essa possibilidade existe. Os insetos possuem receptores nervosos convergentes; suas terminações nervosas são na pele (carapaça quitinosa). Admirar-me-ia que todo esse complicado sistema existisse sem uma função ou, sendo tão aproximado ao nosso, desempenhasse uma função tão diferente. Mas, mesmo supondo que as abelhas fossem incapazes de sofrer, mesmo assim, a produção de mel é antiética. Não deixaria, nesse caso, de ser um saqueamento, um roubo. A exploração da colméia é explícita, bem como toda a sua implicação no meio ambiente. Continuar a participar disso é ser inseticista (discriminar o direito intrínseco à vida dos insetos) e continuar sendo cúmplice da exploração dos mais fracos para satisfazer um luxo.

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